Mensagens vindas de 93.
Danilo Fraga
Texto publicado no Caderno Dez!, A Tarde.



Mais de uma década atrás, no ano de 1993, ainda não existiam indies. Naquela época ser “alternativo” significava gostar de algumas bandas de rock norte-americanas que, como Fugazi e Rites Of Spring, buscavam uma nova forma de tocar punk rock. Suas letras não tratavam de crítica social, mas de temas subjetivos; suas músicas iam além dos três acordes básicos do punk, experimentando a dissonância, novos ritmos, novos timbres e, principalmente, novos arranjos vocais. Ainda dava para chamar “isto” de punk rock? Talvez não. Emo, emocore ou simplesmente alternativo foram definições comuns para este tipo de música.

Mais ou menos nesta mesma época surgiam no Brasil bandas como o CPM 22, que pouco a pouco descobriam procuravam a formula mágica para fazer emocore em português. Na verdade, eles importavam a métrica e entonação das bandas americanas com poucas modificações – o que, na prática, consistia em terminar todas as sentenças com um verbo e esticar última sílaba deste até o final do compasso. No decorrer da década surgiram outras soluções para o problema, como a do Dance of Days e Noção de Nada – ambas frustradas. Com uma sonoridade mais vendável, bem na fronteira entre o hardcore melódico californiano e o emocore, o CPM 22 terminou a década como uma das bandas de rock brasileiro de maior visibilidade. Foi ela que trouxe este tipo de sonoridade ao conhecimento do gosto médio.

Acontece que, acidentalmente ou não, “1993” também é o nome da melhor faixa de “Revés em si bemol”, o primeiro álbum da baiana Mirabolix – banda formada por Matheus Brasil [guitarra e violão], Davi Cokeiro [bateria, trompa e escaleta], Rafael Nunezz [voz], Maurício Tokimatsu [guitarra] e Bernardo Von Flach [baixo e gritos]. O lançamento do álbum é nesta quarta, dia 07 de dezembro, a partir das 22 horas no Miss Modular [Rio Vermelho]. Além de Marabolix o show conta com a participação da banda Automata e dos Djs Big [hip hop], Roots [drum'n'bass] e Bassick [drum'n'bass]. O ingresso é R$ 7, mas pagando R$ 20 você leva também o CD da banda.

Na primeira faixa do álbum, “Redemoinhos”, já se percebe que grupo tem uma relação estreita com o emocore americano: guitarra pesada, mas não muito suja, dissonâncias, bateria alternando entre versos rápidos e cavalgados e outros mais cadenciados, arranjo vocal bem trabalhado, enfim, todos os clichês do gênero são [bem] explorados nesta canção. Assim também se passa em “Tudo de novo; começo sem fim”, “Histórias que não teria deixado para trás...”, “Ciscos na Imensidão”, “Agressões Noturnas”, entre outras.

Mas é quando a primeira faixa dá lugar a “Pular no Mar” que percebemos que Mirabolix é muito mais do que isso. Neste álbum, o emocore dá lugar a todo tipo de experimentação – com instrumentos heterodoxos [como trompa, escaleta, violino, oboé e maquina de escrever], efeitos sonoros estranhos, conversas pelo telefone, além diálogos com gêneros bem diversos. Lembrando que uma das principais características do emocore é exatamente a experimentação e questionamento das fronteiras do punk rock, Mirabolix tem o mérito de transportar a experimentação de bandas como The Get Up Kids [com seus arranjos de teclado que as vezes lembram Duran Duran] para o cenário da música brasileira. Neste sentido a bossa nova de “1993” e “Já passou”, o samba de “Mundo Velho” e “Pular no Mar” e o blues pra lá de psicodélico de “Naked by” fazem todo o sentido.

E não é somente na sonoridade que a banda dialoga com o emocore. O material promocional [sites, fotos, encartes] são típicos do gênero, além das letras e vocalizações da maioria das canções. Na verdade, as experimentações da banda é só mais uma prova que eles dialogam com o gênero do The Get Up Kids. A banda tem um grande mérito: conseguir adaptar perfeitamente a dicção do emocore para o português sem precisar apelar para o alongamento vocálico do CPM 22. Assim, Mirabolix quase consegue fazer o emocore soar adulto, se é que isto é possível.

Revés em si bemol
Atalho Discos
R$ 15
Música para feriados nublados

Pedro Fernandes

Texto publicado originalmente no Caderno Dez! do A Tarde




No livro “Admirável Mundo Novo”, Aldous Huxley descreve, num futuro não muito distante, uma sociedade dividida em castas, onde a conformidade ao Estado totalitário passa por processos de condicionamento mental e pelo uso do soma, uma droga que produz ao mesmo tempo felicidade e letargia. Sem alterar sentidos e, ao contrário da droga futurista, trazendo uma carga de melancolia lúcida que só se experimenta em feriados nublados, a banda baiana Soma lança “Dramorama”, seu primeiro EP gravado em estúdio e com participação de todos os integrantes da banda.
Em 2001, Rafael Cavalcanti [voz e guitarra] e Josh [guitarra] começaram a fazer algumas composições, gravaram algumas com o baixo e a bateria programados no computador, um rascunho do que deveria ser o som da banda. Começaram a procurar gente para formar o grupo. Em dezembro daquele ano, Rogério Alvarenga [baixo e voz] e Edu Marquez [bateria] se juntaram ao dois primeiros para completar a Soma.
Em janeiro de 2002, começaram a tocar por diferentes espaços da cidade. Lançaram o EP “Eu, o Alien”, feito com as gravações caseiras. Gravaram um outro trabalho em parceria com a banda uruguaia Dante Inferno. Se antes havia diferença entre as gravações e as apresentações ao vivo da banda, determinada pela ausência de Rogério e Edu nas primeiras, agora, com “Dramorama”, o som da banda se torna um só. “É o registro do que é a banda. A escolha das músicas reflete o nosso momento atual”, diz Rafael.

Experiência – Para a Soma, o novo EP representa uma etapa pela qual era necessário passar. Rafael: “Queríamos gravar um CD, mas o EP veio como experiência de um processo de gravação. Não é só para as pessoas ouvirem. É para a gente também se ouvir. Um exercício de repertório e estilo, do conceito do nosso som”. Embora exista uma sintonia nas preferências musicais dos integrantes, onde a influência de bandas como Radiohead está mais do que marcada, há espaço para referências menos claras e que só mesmo eles ou um ouvido bastante aguçado seriam capazes de identificar. Talvez um pouco [mesmo] do Korn, trazido por Rogério, ou das atuais influências jazzísticas de Edu. Mas não fogem das influências mais óbvias, e Rafael as defende. “As pessoas têm de legitimar referências a bandas contemporâneas. Pode citar o Velvet Underground só porque eles não existem mais, mas dizer que é influenciado pelo Coldplay, não. Acho bobagem”.
A produção do novo EP foi totalmente independente. Não houve nenhum tipo de patrocínio. Rogério: “Tivemos o apoio de muita gente, conseguimos preços módicos no estúdio e, como tivemos um período de pré-produção longo, sabíamos exatamente o que queríamos. O que faltava definir era o número de músicas. Seriam quatro, mas não deu pra resistir e não gravar as cinco”

Amor, naturalmente - “Dramorama” é para dias chuvosos. Cada música poderia ser uma parte desse dia. “Coma”, a primeira faixa, é uma manhã fria, com uma guitarra que poderia ser gotas de água batendo no vidro da janela. “Meu Dilema” é a seguinte. Deu meio-dia, o telefone não deu sinal de vida. Com “Conversas & rock’n’roll”, você resolve sair da fossa, dar uma volta e ver coisas diferentes. Na quarta faixa, “Novo ou Velho”, o dia vai acabando e nada aconteceu. “Dramorama”, a número cinco, é um sorriso hipotecado para amanhã, uma guitarra um pouco mais ácida e um coral de estrelas pálidas no horizonte.Além do apuro técnico proporcionado por uma gravação em estúdio, o talento dos caras fica evidente. Tanto nas músicas e nos arranjos, bem-elaborados, mas sem muitas firulas, quanto nas letras de Rafael, belas, simples e verdadeiras.A unidade do EP surpreende. As cinco músicas são diferentes o suficiente para ser separadas em faixas, mas quase se completam e poderiam contar uma só história. De amor, naturalmente. De uma desilusão ou de uma certeza suspeita de que as coisas ficarão bem, mas não hoje.


Dramorama
Soma
R$ 8
Vintage mania

Pedro Fernandes

texto publicado originalmente no Caderno Dez! do A Tarde



O vintage virou moda e por isso é um filão crescente no mercado fonográfico. O lançamento do primeiro disco da banda carioca Ramirez vem para reforçar essa teoria. O som da banda, embora um pouco mais veloz, tem a doçura de baladinhas cinqüentistas a la Platters e Penguins. O clima é de baile anos dourados sem gomalina nos cabelos. Mistura já testada e aprovada pelo Los Hermanos em seu álbum de estréia.
Há três anos, quando saiu de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, Thiago Pedalino [voz e guitarra] já tinha escrito praticamente todas as músicas desse CD, “Ramirez”. Só faltava encontrar o resto da banda. Frank Dias [baixo e voz] ele já conhecia da sua infância passada no Rio de Janeiro. O resto da banda, Rafael Cosme [guitarra e voz] e Matheus de Giacomo [bateria], veio depois.

Processo – Logo gravaram a primeira demo da banda, meio tosquinha, num esquema mambembe, mas que serviu para despertar o interesse do produtor Marco Sketch, do selo Performance Be Records, com quem assinaram e produziram uma nova demo, com as mesmas músicas da primeira, mas de uma maneira mais elaborada e com uma cara mais profissional.
“Foram dois anos de underground intenso, tocando em bares para duas pessoas, até começar a fazer shows grandes no Rio”, conta Thiago. Daí para despertar o interesse de uma grande gravadora foi rápido e gravar o primeiro CD foi mais rápido ainda. Nem foi necessário gravar as vozes, que aproveitaram da segunda demo.
A banda já tinha um número razoável de fãs e vinha destacando-se em festivais de música como o Mada [Música Alimento da Alma], de Natal, Rio Grande do Norte, do ano passado, além de vencer como revelação o “Prêmio Claro de Música Independente” e melhor canção [“Alguém Melhor”, faixa 1 do CD] e melhor demo no “Prêmio London Burning” de 2003.

Imaturo e previsível - Os caras têm competência, mas ainda há bastante o que amadurecer na sonoridade da banda, marcada por fortes influências da Jovem Guarda, Beatles e grupos vocais da década de 50, mescladas a batidas atuais, do pop ao hardcore. Porém, é tudo tão explicitamente reconhecível, que um incômodo inicial é inevitável.
O álbum é feito de 11 baladas. Seguindo uma linha bastante irregular, há momentos em que o potencial do grupo se mostra e outros em que a imaturidade sonora torna-se evidente, prejudicando o resultado final da obra.Abrindo o disco, “Alguém Melhor”, com riffs velozes e poderosos. A bateria também dá certo peso à música, aliviado pela letra sentimental e pela voz suave de Thiago. Em seguida, vem “Matriz”, escolhida como a música de trabalho da banda, menos por sua qualidade que por óbvias razões mercadológicas. Refrão grudento, bateria repetitiva e guitarras enjoativas. O perfeito hit pop para tocar no rádio.
“Menininha” é a baladinha cinqüentista por excelência, trocando o piano pela guitarra e com direito a coral cantando “uuuus” e “aaaas” ao fundo. A associação ao primeiro CD do Los Hermanos é imediata, embora Thiago negue uma influência direta: “Ouvimos Los Hermanos como ouvimos Pato Fu e CPM 22, eles não chegam a ser uma influência.”
A quinta faixa, “Te Esquecer”, tem uma pegada hardcore interessante e ecos que lembram os Beach Boys em alguns momentos. “Me Diz” vem com a mesma fórmula da faixa 1, jogando com o binômio peso-leveza, mas dessa vez aliviando um pouco a bateria e acelerando as guitarras.
Nessa alternância, as coisas caminham até a faixa 9, “Deixar pra Trás”, quando surge um country inesperado, deslocado no espaço e no tempo. “Não Vá” é alegrinha, bobinha e previsível. “Não Fique Assim” fecha o disco com a eficácia da mistura “velho com roupa nova”. Desta vez, ao contrário das outras, dando mais ênfase ao novo que ao velho, que se torna uma referência sutil e não mais uma influência tão marcada. No fim, fica a sensação de que tudo seria melhor se não houvesse tantas derrapadas no desejo exagerado de ser vintage.



Ramirez
Ramirez
Performance Be/Universal
R$ 21,90
Pop revolução
Pedro Fernandes

Texto publicada originalmente no Caderno Dez! do A Tarde


Não precisa ser profundo conhecedor dos porões obscuros da world music para ter ouvido falar em Mathangi Arulpragasam, pois o nome com o qual ela se apresenta está na boca do povo. M.I.A., ou a gringa que sampleou um funk carioca em seu disco de estréia, é a nova sensação da música pop mundial.
Incensada pela crítica, a moça foi destaque nas mais respeitadas publicações internacionais por fazer o que os críticos em uníssono dizem ser algo nunca ouvido antes. A verdade é que o som de M.I.A parece mesmo diferente de qualquer coisa pelo amontoado de referências cosmopolitas contidos no mesmo CD e, às vezes, em uma mesma música. Longe de algum tipo de tentativa forçosa de serem [com o perdão do palavrão] pós-modernas, as menções de “Arular” surgem naturalmente como parte da biografia de sua autora.

Nômade – Nascida na Inglaterra, Maya, como também é conhecida, passou a infância no Sri Lanka. Seu pai era escritor e militante na guerrilha dos tâmiles, minoria étnica que exigia independência do resto do país. Quando a guerra civil estourou nos anos 80, sua família foi obrigada a fugir para a Índia. Aos 10 anos, foram para a Inglaterra. Seu pai, que usava o codinome Arular [título do seu álbum], desapareceu em combate e aí está mais uma referência ao passado revolucionário da família em sua vida artística: M.I.A. é a sigla em inglês para desaparecido em combate [Missing In Action].
Além de ser a autora de todas as músicas do CD, ela, que é formada pela Central Saint Martin’s School of Art de Londres, é a responsável pela parte gráfica do encarte, também cheia de referências a guerras, explosões e violência urbana. A disposição das letras em conjunto com as imagens forma um caleidoscópio que incomoda se colocada à parte das escolhas poéticas de toda a obra.
“Arular” funciona muito bem como produto pop que vende e tem clipe nas paradas da MTV, mas com uma personalidade que não soa pré-fabricada. M.I.A. está em exposição nas prateleiras da indústria fonográfica, mas ela mesma, em sua falta de caras e bocas e pernas de fora, parece não estar à venda.

Guerrilha musicológica - O clima é o de um lugar no meio de uma cidade em ruínas de algum país subdesenvolvido arrasado por uma guerra civil motivada por razões obscuras, a não ser para os envolvidos nela. Anoiteceu e alguém sugeriu algum tipo de diversão. No palco, uma mulher de voz estridente cantando sobre bases eletrônicas e sons vindos de várias partes, identificáveis ou não, do mundo.
Enquanto as pessoas que passaram o dia guerreando dançam sem se importar por quanto tempo o prédio continuará de pé, bombas estouram a poucos quarteirões de distância. Isso é “Arular”.
Referências extraídas de um mundo decadente onde explosões se misturam a programações eletrônicas e letras que não buscam alívio fora da realidade. Letras e músicas em “Arular”, à primeira audição, se excluem como números de sinais opostos. Mas é justamente o contraste entre as melodias dançantes e letras que falam de guerrilhas, fuzilamentos e revolução que dá o tom de caos pós-apocalíptico ao álbum.
Em “Pull Up The People” ela avisa: “Eu tenho as bombas para fazer você explodir”. E é o que ela faz em todas as faixas seguintes. Traduzindo a violência das guerras e das cidades grandes em sons pulsantes e impossíveis de não serem corporificados.
Em “Bucky Done Gun”, a referência é o Rio de Janeiro e o funk carioca, com um sampler da música “Injeção” de Deize Tigrona e DJ Malboro. Em “Amazon” e “Galang”, a repetição do refrão e de fonemas por um coro de vozes femininas mais parecem mantras indianos feitos para fazer dançar. E fazem.


MIA
Arular
Sun
R$ 28
Um chá doce, quase alucinógeno
Crítica originalmente publicada no site Petshop

“Não faço mais as coisas que costumava fazer, porque já fiquei velho.” Essa é a frase que abre a faixa Done Got Old, de um dos álbuns mais estranhos e interessantes do blues: Sweet Tea, de uma das últimas lendas vivas do blues, Mr Buddy Guy.

Lançado em 2001 pelo selo Jive, Sweet Tea é um daqueles álbuns que podemos definir como difíceis de digerir. Buddy Guy buscou uma sonoridade que, pra quem está acostumado com seus trabalhos acústicos ao lado de Junior Wells, autoridade do blues na gaita, pode parecer um tanto quanto “sombrio”.

Embora tenha calcado boa parte do repertório desse álbum com covers clássicos do bluesman Junior Kimbrough, Buddy Guy se refugiou no estúdio Sweet Tea (Sim, é daí que vem o nome), no Mississipi, e criou uma atmosfera densa e sombria, para, pelo menos, cinco das nove canções que compõem o álbum.

Para ficar claro, a faixa de abertura, Done Got Old, é um blues tradicional, com violão de aço e frases autênticas do blues, o que dá, de certa forma, uma falsa pista do que está por vir. Baby Please don´t leave me, a faixa seguinte, tem tudo que um bom blues pede, um vocal sincero, triste, desesperado por ora, riffs e solos que não deixam dúvidas da identidade da canção, mas com uma diferença que marca todas as faixas seguintes: o eco.

Pode parecer pouco para tanto alarde, mas as guitarras e todo o instrumental parecem que estão gritando ou chorando uma melodia que vem de longe, num contínuo sonoro que aos poucos rodeia, como um “spectrum fantasmagórico”, os vocais poderosos de Buddy Guy.O mais interessante é que esse efeito reverb particular dos instrumentais foi captado diretamente da acústica que o estúdio Sweet Tea proporciona. Em dados momentos, a sonoridade que o eco do estúdio proporciona para as faixas as fazem lembrar alguns efeitos utilizados pelo rock progressivo. Tal comparação é válida, contanto que não se confunda sonoridade com arranjo, melodia, estrutura e proposta musical. Sweet tea imerge numa atmosfera de "transe", por hora quase alucinógena, ao mesmo tempo que finca em solo firme sua consistência e identidade: O Blues.


Toda essa atmosfera serve de base para as demais canções, com destaque para Look what all you got e a faixa de doze minutos I gotta try you girl, que oferece um blues com arranjos mais pesados, solos longos e vocais gritados.

Sweet tea é uma experiência marcante e que, de certa forma distoa dos trabalhos anteriores do senhor Buddy Guy, assim como oferece uma sonoridade peculiar para o blues. Voltando a frase que dá partida ao álbum, só resta celebrar o fato de Buddy Guy estar envelhecendo e não estar fazendo a mesma coisa que fazia antes. Se depender desse bluesman, o velho e bom blues continua respirando, na sua forma autêntica sem estar fechado para novas experimentações.


Rockabilly´s BACK
Critica originalmente publicada no site Petshop

Reviver clássicos de antigos rockabillies imortalizados por nomes como Carl Perkins, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Charlie Rich é mais nova empreitada do cantor e guitarrista Brian Setzer.


Para os desinformados, Brian Setzer foi o líder da banda de rockabilly norte - americana Stray Cats, que, na década de 80, conquistou uma legião fiel de fãs ao redor do mundo, mesmo estando meio “fora do tempo”, já que o mercado fonográfico investia pesado em outros gêneros. Com o término do Stray Cats, que às vezes ainda se reúne para alguns shows com ares comemorativos, Setzer sempre tocou projetos independentes, ou solos ou com sua orquestra: Brian Setzer Orchestra que incorpora o rockabilly com elementos das big bands, do bop e do swing jazz.

E é graças a sua paixão por esse gênero que marcou os primórdios do Rock and Roll e influenciou milhares de banda, como os Beatles, que Setzer presenteia o mercado e o público sedentos por algo positivamente "fora de moda". A obra em questão: Rockabilly Riot Vol.1: A Tribute to Sun Records.
Cover, do bom e do melhor, seria a melhor classificação para esse álbum que conta com 23 canções compostas ou imortalizadas pelo melhores artistas que passaram pela lendária gravadora Sun Records, entre eles Elvis Presley e Carl Perkins.

Se existe alguém que nasceu na época errada, esse cara é Brian Setzer. Setzer é o melhor guitarrista da década de 50 nascido na década de 60, tendo atuado na década de 80 até hoje, que continua provocando a grande dúvida e admiração daqueles que o ouvem: “Como pode tocar e cantar tão bem ao mesmo tempo?”. Essa é a sua grande vantagem, ainda mais se tratando do álbum em questão.

Rockabilly Riot é um álbum de covers, não de versões. O intuito de Setzer foi o de resgatar o ambiente e sonoridade das 23 canções escolhidas para compor esse primeiro volume, para isso se refugiou em um estúdio em Tennesee, usou microfones do período das gravações originais, buscou efeitos de ecos similares, montou uma banda que buscou estudar e tirar as linhas de bateria, baixo e piano com precisão e sonoridade das canções originais e manteve o clima de gravação ao vivo, com direito a diálogos e erros no início de algumas faixas. Mas sem equívocos: Rockabilly Riot não é uma mera reprodução. O estilo da banda é marcante e detém propriedade, principalmente as guitarras de Setzer, que embora tenha encorpado uma sonoridade ainda mais característico dos rockabillies de 50, ainda demonstra seus poderosos e particulares Licks, solos e Riff´s, frutos do seu estilo, baseado no bop, no jazz, no blues e no swing. Além das guitarras, Setzer mostra um vocal mais maduro, que varia da suavidade mais aguda para o mais grave, ora rasgado ora “estragado”, sempre impecavelmente bem servindo o que a música pede.

Rockabilly Riot tem uma ótima seleção de músicas e uma excelente distribuição das faixas, sem altos e baixos, sempre mantendo o ritmo sexy e dançante do bom e velho estilo desse gênero. Muitas canções, aparentemente desconhecidas pelos títulos, serão possivelmente reconhecidas na melodia, destaques para a faixa 3 Real Wild Child que traz linhas de piano que lembram os melhores riffs de Jerry Lee Lewis, para a faixa 9 Glad All Over (Que foi gravada pelos Beatles na BBC de Londres) e a faixa 14, a versão de Blue Suede Shoes de Carl Perkins, imortalizada por Elvis Presley.

Rockabilly Riot vale muito mais do que a pena. É fundamental para quem gosta de Brian Setzer e do gênero Rockabilly, e imprescindível para quem queira ouvir uma música de qualidade, com repertório e execuções de rara qualidade com pitadas nostálgicas.

A má notícia é que Rockabilly Riot só existe importado no Brasil e está sendo vendido, em média, pelo preço de R$ 110,00. Vale à pena? Se você tiver dinheiro para investir, sim, vale muito mais que a pena, com já foi dito. Mas, se não, existem outros meios.......o que não pode é ficar sem conhecer, nem que seja pra ouvir 30 segundos de cada faixa em sites de venda ou em pé na frente daqueles players verticais de lojas de discos.

O grande pateta
Danilo Fraga

Texto originalmente publicado no Caderno Dez!, A Tarde.



Nos anos 60, no auge do colorido movimento hippie, alguns jovens começaram a usar jaquetas pretas, calças de couro e a desprezar os ideais de paz. Assim surge o Black Sabbath e o metal na Inglaterra, mas, longe da ensolarada São Francisco, também nos EUA acontecia algo parecido.

No final de 1967, em Detroit, o jovem James Osterberg reúne três amigos, Dave Alexander e os irmãos Ron e Scott Asheton, para formar uma banda. A idéia era peitar o ideal hippie e a música mais bem cuidada das bandas britânicas, fazer um som cru e pesado. Mais tarde, o jovem James seria conhecido como Iggy Pop e seu grupo, The Stooges [os patetas], entraria para a história do rock como uma das bandas mais feias, sujas e malvadas de todos os tempos.

Para quem tem menos de 50 anos, resta aproveitar a chance e conferir os Stooges no festival Claro Que é Rock – eles estão de volta depois de mais de 30 anos parados. Os shows rolam nos dias 26 e 27 de novembro, em São Paulo e no Rio de Janeiro respectivamente. Além dos Stooges, o set é considerável: Sonic Youth, Flaming Lips e Nine Inch Nails.

Blues – Quando começou sua carreira, Iggy queria tocar blues e chegou a montar uma banda, The Iguanas. Mas não era um músico virtuoso. Também não se destacava pela inteligência [como John Lennon], beleza [Jim Morrison] ou sensualidade [Mick Jagger]. A Iggy restava denunciar a falta de sentido na vida dos jovens americanos.

O som da banda era uma versão mais simples e suja do rock blueseiro tocado por grupos como Rolling Stones e Cream. Eles falavam do tédio e da apatia, pregavam a destruição de tudo o que estivesse pela frente.No palco, Iggy se mutilava com cacos de vidro, cuspia na platéia, fazia sexo com o microfone, vomitava, insultava a todos.

Os Stooges lançaram o primeiro CD em 1969. Em19 74, depois do final da banda, Iggy Pop seguiu em sua carreira solo, oscilando entre momentos memoráveis e outros, desprezíveis. Depois de três décadas, a banda se reuniu novamente no final de 2003, em formação quase igual à original: Iggy Pop, no vocal, Ron Asheton, na guitarra, e Scott Asheton, na bateria. O baixista Dave Alexander, morto recentemente, foi substituído por Mike Watt [ex-Minutemen]. Desta reunião vai sair um novo álbum, o “Skull Ring”, e uma turnê por todo o mundo – incluindo aí as apresentações no Brasil.

Punk - Em sua carreira meteórica, os Stooges lançaram apenas três álbuns de estúdio – “The Stooges” [1969], “Fun House” [1970] e “Raw Power” [1973] –, todos obrigatórios e imprescindíveis na história do rock. Sem eles, o punk na década de 70 não teria acontecido.

Sem Stooges, não haveria Ramones, New York Dolls e nem Sex Pistols – a turma de Sid Vicious tinha Iggy como ídolo máximo. Ainda hoje podemos ouvir os ecos das guitarras sujas e simples de Ron Asheton em bandas como Strokes, White Stripes e The Hives. Nas palavras de Mário Jorge, ex-bateristada Penélope, “Iggy Pop fez muita loucura e já devia estar morto. Acho que é a última oportunidade de vê-lo vivo aqui no Brasil”. Talvez seja mesmo imperdível.
O Cachorro está ficando Grande [e latindo cada vez mais alto]
Danilo Fraga

Texto originalmente publicado no Caderno Dez!, A Tarde



Depois de seis anos trafegando no limbo das bandas alternativas, só agora os gaúchos da Cachorro Grande começam a executar seu plano de conquistar o mundo [pop]. Formada em 99, a banda lançou dois álbuns independentes – “Cachorro Grande” [2001] e “As Próximas Horas Serão Muito Boas” [distribuído pela “Outracoisa”, a revista de Lobão, em 2004].

Mas parece que em 2005 as coisas começaram a acontecer. Além de participar do “Acústico MTV Bandas Gaúchas” e vencer o VMB, a banda lançou seu novo álbum, “Pista Livre”. De tanto fazer cara de cachorro sem dono, finalmente foi acolhida pelo Deckdisc, que tem nomes como Pitty e Ultrage a Rigor.

É exatamente por isso que Beto Bruno [voz], Marcelo Gross [guitarra], Rodolfo Krieger [baixo], Gabriel Azambuja [bateria] e Pedro Pelotas [piano] estão em Salvador. O show de lançamento de “Pista Livre” começa às 21h dessa sexta [4/11], no Rock in Rio, e conta com a participação da Sangria e da Retrofoguetes.

A diferença entre “Pista Livre” e os outros discos da banda é notável. “Este álbum teve uma grande diferença na produção, fomos mais cuidadosos e a qualidade sonora é infinitamente superior”, explica o vocalista Beto Bruno.

Comparado com “As Próximas Horas Serão Muito Boas”, gravado em apenas um dia, o acabamento de “Pista Livre” é impecável, fazendo-os parecer menos feios e soar menos sujos. O disco mostra as marcas da mudança do esquema “alternativo” para o “profissional”.

Entre as “diferenças na produção”, o maior destaque está na finalização do álbum - feita no lendário estúdio da Abbey Road. E realmente parece que a aura do estúdio, de alguma maneira, influenciou nas composições da banda. Finalmente descobrimos que os caninos também amam – para o alívio das feministas de plantão.

Abanando o rabinho

Para quem há pouco tempo bradava ter cansado das inibidas e, agora, só querer mulher vivida [“Sexperienced”, do primeiro álbum], versos como “Sinceramente você pode se abrir comigo/ Honestamente eu só quero te dizer que acertei meu pulo quando te encontrei/” soam muito românticos.

No disco, o vocal de Beto Bruno está menos irritante – em algumas faixas ele chega até mesmo a cantar [isso mesmo, ele não grita]. “Interligado” conta com um belo arranjo de cordas – “É a nossa Eleanor Rigby”, comenta Beto Bruno. Sonhos à parte, a canção lembra mais “Flores em Você” do Ira, o que já é um elogio e tanto.

Já “Sinceramente” tem arranjos de piano à moda do Coldplay e concorre seriamente a ser um hit radiofônico, ou tocar em alguma novela – pior pecado que uma banda alternativa pode cometer. Mas isso não parece preocupá-los: “De que adianta fazer as músicas e quase ninguém ouvir?”

É claro que todas essas mudanças podem desagradar aos fãs mais conservadores para quem tudo isso tira um pouco do barato. Mas essa diversificação parece dar maior vida útil à banda. Utilizando a combinação terninho + guitarra, infalível nos dias de hoje, Cachorro Grande muitas vezes soava como o Bloc Party, Kaiser Chiefs ou como outro Franz Ferdinand da vez.

Este problema é resolvido em “Pista Livre”. Canções dançantes [“Desentoa” e “Novo Super-Herói”], com influências do country [Eu Pensei] e da Jovem Guarda [“Agora Eu Tô Bem Louco”, “Você Não Sabe Nada”] mostram que o Cachorro Grande pretende latir por muito tempo. E eles ainda rezam para a Santíssima Trindade – Beatles, Rolling Stones, The Who. Amém.
Metal farofa-com-frango-frito
Danilo Fraga Dantas

Texto originalmente publicado no Caderno Dez!, A Tarde



O heavy metal é o reino do clichê: homens musculosos com óleo besuntado pelo corpo, tatuagens, cabelos grandes e sujos, franjinhas, pose de malvado e calças de couro apertadas ao ponto de afinar as vozes mais graves. Um prato cheio para qualquer humorista. Mais cedo ou mais tarde tinha mesmo que aparecer algo como o “Massacration”.

A banda apareceu pela primeira vez como um quadro do programa “Hermes & Renato” [MTV]. Mas, com o tempo, a piada foi crescendo: o grupo ganhou seu próprio programa, o “Total Massacration”, criou novas canções, fez turnê pelo Brasil e agora lança seu álbum de estréia, “Gates of Metal Fried Chicken of Death” [Deckdisk], que tem tudo para se tornar um dos álbuns de metal mais vendidos no Brasil.

Nas 13 canções do disco, a banda faz o que já fazia no programa da MTV: uma paródia dos principais clichês do metal. Letras sem muito sentido embaladas por entonações apocalípticas, refrões repetitivos, solos virtuosos, além dos característicos vocais agudos. Eles não fazem nada que bandas como Iron Maiden, Helloween, Judas Priest e, principalmente, Manowar [o Village People do metal] não fizeram antes. A grande sacada da turma do Hermes e Renato é ser ridículo sim, mas de propósito.

Hilário – Logo nos primeiros minutos do álbum dá pra notar a intenção deles: a faixa de abertura traz uma receita de bolo lida por uma voz diabólica. Depois vem “Metal Is The Law”, que começa com um hilário riff misturado com a levadinha do “em cima, embaixo, puxa e vai”.

O resto do álbum é, basicamente, a mesma coisa: “Evil Papagali” conta a história de um papagaio infernal e tem como refrão “Loro quer biscoito”, “Metal Dental Destruction” começa com a frase “Feel the killing broca” e “Metal Glu Glu” conta com a participação especial de Sérgio Mallandro. As já famosas “Metal Massacre Attack”, “Metal Milkshake” e “Metal Bucetation” ganharam regravações.

Não é exagero dizer que desde o Sepultura não aparecia nada de tão interessante no metal brasileiro. Colocando em evidência os clichês do gênero, o Massacration acaba mesmo é colocando nossos metaleiros no divã. O famoso conservadorismo que condenou o “Roots” do Sepultura alguns anos atrás já precisava ser revisto.

Na verdade, o Massacration pode ser entendido como uma prova da maturidade do metal no Brasil. Só depois que as regras de um gênero se encontram bem claras na cabeça de todos é que a paródia faz sentido. E olha que o Massacration parodia muito bem.

Agora, se você consegue levar o Manowar a sério, é bem provável que não vá gostar de Massacration. É uma pena. Rir de si mesmo é sempre um ótimo exercício de autocrítica. E talvez a paródia seja mesmo uma boa saída para o metal brasileiro. Ou parece mais inteligente importar sem restrições a moda das camisas pretas para nosso calor tropical?

Massacration
Gates of Metal Fried Chicken of Death
Deckdisk
R$ 24,90
Wendy e os garotos perdidos
Danilo Fraga

Texto originalmente públicado no Caderno Dez!, A Tarde



E dizem que ficar vagabundeando pela internet não leva a lugar nenhum... Há dois anos, Leo Cebola, 24, [bateria] conheceu Andréa, 19, [vocal] no mIRC. Levantaram a possibilidade de montar uma banda de rock com vocal feminino e marcaram para conversar melhor em um show naquela mesma noite. Lá também estavam Helinho, 21 [guitarra], e Danilo, 23 [guitarra]. Em uma semana já estavam ensaiando suas primeiras canções. Pouco depois se juntou a eles David, 19 [baixo], e assim nasceu o Canto dos Malditos na Terra do Nunca [CMTN].

Só neste ano eles já tocaram no Palco do Rock, abriram o show para o Placebo [na seletiva baiana do festival “Claro q é Rock”], e, em São Paulo, para Nando Reis e Ira. No domingo [27/11] aparecem no programa “Banda Antes” da MTV, lançam seu novo trabalho, o álbum “Olha a Minha Cara”, e se preparam para sua segunda viagem para São Paulo. Sábado, tocam junto com a Theatro de Seraphin e a Lacme no Miss Modular [Rio Vermelho], às 23h. O ingresso é R$ 5.

Antigo – Certo que este crescimento frenético só foi possível com as novas tecnologias de gravação e distribuição – a banda tem o fotolog [www.fotolog.net/cmtn], comunidade no Orkut e suas músicas podem ser encontradas facilmente na internet. Mas algumas das principais conquistas do CMTN foram fruto do mais velho dos meios de comunicação – o boca-a-boca.

Conta a lenda que a primeira demo da banda foi parar na mão de Joe [baixista de Pitty] e foi a trilha sonora da gravação de “Anacrônico”, o novo álbum dela. Depois disso, conseguir um empresário em São Paulo, shows e espaço na MTV foi um pulo. Carlos Eduardo Miranda, daTrama Virtual, esteve em Salvador para ouvir o som dos caras. Agora a banda planeja ir a Sampa para conquistar um novo público e tentar, enfim, viver de música. “Tem que ter muita raça pra tocar rock em Salvador. Faltam casas de show, estrutura, tudo. Em São Paulo, queremos oportunidades”.

Olha a Minha Cara - CMTN
R$ 5
cmtncontato@hotmail.com

Olhem a minha cara. Cara de quê?

O novo EP do CMTN, “Olha a Minha Cara” [que será lançado no dia 11/12], não traz grandes novidades para quem já conhece a banda há algum tempo: “Este trabalho pode ser visto como uma continuidade de nossa demo, só agora as músicas estão mais bem trabalhadas”, explica o guitarrista Danilo. Por outro lado, as sete canções são uma amostragem do estilo da banda. Para a vocalista Andréa, “no segundo álbum está mais nítida a influência de cada um”.

Verdade. O CMTN pode ser localizado no encontro de algumas tendências do rock dos anos 90 que, na eterna batalha da autenticidade, perderam o posto de “queridinhos” da crítica para o rock inglês. Misturando new metal, grunge, emo e hardcore ao rock brasileiro, “Olha a Minha Cara” é a prova de que existe novidade no mundo do rock fora da influência do indie.

É entre estes subgêneros do rock que a banda tenta encontrar sua cara. É uma proposta que faz sentido e tem futuro, mas que, algumas vezes, causa certa confusão - como em “O Que Te Faz Voltar”, que é uma boa canção, mas fica meio deslocada do resto do álbum com sua sonoridade “samba-circense”.

Mas o que agrupa as sete canções do álbum e diferencia o CMTN das diversas bandas de new metal que apareceram nos últimos anos é a influência que Andréa carrega do rock brasileiro, em suas letras e modo de cantar. “Eu gosto de Los Hermanos, Cassia Eller, Cazuza, Titãs velho, entre outros”, explica.

Esta influência fica bem clara no modo como ela emposta a voz e alonga as sílabas no final das frases e também em suas composições. Geralmente Andréa chega com a composição pronta no violão e o resto da banda fica responsável pelo arranjo, mas outras vezes Helinho aparece com alguma frase na guitarra e ela coloca a letra – todas em português. “O que nasce dentro de mim é em português. Eu não tenho escolha”, completa.

Mas é também o modo de Andréa cantar o alvo da maior parte das críticas negativas dirigidas à banda: a repetição de alguns esquemas melódicos na maior parte das canções, seu timbre grave e um certo maneirismo fazem ela soar como um menino em plena puberdade. Uma imagem bem apropriada. Afinal, na Terra do Nunca, os garotos nunca crescem.
A ditadura da guitarra com wah-wah



Hoje em dia, existe em Salvador uma faixa de consumo muito bem definida que vai do forró “pé-de-serra” ao rock com batuque. As mesmas pessoas, com suas sandálias de couro, cabelos encaracolados e saias com motivos indianos, freqüentam os shows de bandas como Bando Virado no Mói de Coentro e Navio Negreiro. Talvez porque este tipo de som combine com o clima praiano de Salvador, com nossas matas, nossas “ervas”, ou talvez porque ele esteja mais de acordo com as “raízes” negras do “povo” baiano, pouco importa. Não estou aqui para fazer qualquer juízo de valor sobre estas pessoas ou estas bandas. O que importa que no centro deste cenário, está uma apropriação pop e festiva do reggae, guitarras com wah-wah que transformam o lamento da batida jamaicana em um bom motivo para encher shows de bandas como Mosiah, Diamba e Scambo.

De tão identificadas no gosto de seu público, essas três bandas parecem, às vezes, formar uma palavra só: eugostodemosiahdiambaescambo é uma resposta muito corriqueira. Não preciso nem dizer que não faço parte deste público, mas, dentre essas três bandas, sempre ouvi dizer que Scambo é a que mais se destaca. Exatamente por isso, hoje (20/09) aceitei um convite e fui, finalmente, ver um show deles no Teatro ACBEU. A apresentação fazia parte de um projeto chamado Terças Caymmi que, ao que pude entender, tinha algo a ver com o Troféu Caymmi. O convite era de graça por isso, caso não gostasse do show, não corria o risco de ficar muito zangado. Uma boa oportunidade de modificar, ou reafirmar, velhos preconceitos.

Depois de um interminável vídeo sobre o Troféu Caymmi, no qual podíamos ver depoimento de famosos como Ivete Sangalo e Daniela Mercury, comecei a entender porque o Scambo realmente merece algum destaque na cena “pop-roots” de Salvador. Depois passei a entender também porque a banda não consegue se descolar desta cena.Vi um show bem preparado, com uma boa iluminação e efeitos sonoros interessantes. Os arranjos muitas vezes conseguiam até sair do lugar comum, flertando com o new metal, o samba, o samba rock... As letras, apesar de tratarem de temas tão “inovadores” como a hipocrisia da sociedade, eram bem construídas e pareciam convincentes quando cantadas. Para a minha surpresa estava achando bom, mas tinha algo que me incomodava o tempo todo. Aqui e ali ainda podemos ouvir, furtiva nos arranjos, a velha guitarra com wah-wah que denunciava: o Scambo é uma banda reggae travestido de modernidade. Depois percebi que não era só a guitarra. Na verdade, a banda toda dava sinais de um caso grave esquizofrenia.

O repertório do show poderia ser dividido em dois grandes blocos, a água e o óleo. Se por um lado ouvíamos pop-reggaes típicos, como o mini-hit Sol, cantado em coro por todo o teatro, também era fácil perceber as tentativas da banda de superar esta barreira. Dos quatro covers que eles tocaram, um era de Chico Buarque (Geni e o zeppelin), um de Caetano Velloso (Tigresa), um de Gonzaguinha (Ocê e eu) e um de João do Vale (Carcará). Quatro canções que, somadas à insistência de recitar poesias no meio dos números musicais, configuram uma estratégia clara de legitimação para além dos becos esfumaçados do Pelourinho (qual o nome mesmo daquele beco que toca Reggae?). Tudo ocorria como se a banda não tivesse decidido se realmente toca reggae, agradando seu público, ou parte para algumas experimentações que, diga-se de passagem, me pareceram muito mais interessantes. Essa divergência não se resume ao repertório, mas parece estar encarnada nos mais diversos aspectos da banda. Isso pode ser facilmente notado no figurino: o macacão de mecânico azul marinho, típico de bandas de new metal como o Rage Against The Machine e o Slipknot, teve que sofrer “apropriações” para combinar com o estilo "menos arrojado" de parte da banda. A roupa do baixista, por exemplo, tinha as mangas cortadas e o acréscimo de um boné, um traje típico de jogador de futebol em momento de descanso. A partir de seu núcleo regueiro, a banda parece querer apontar, de maneira desordenada, para a conquista de um público mais amplo.

Os pontos altos do show coincidem exatamente com os momentos em que a banda consegue equilibrar essas duas tendências. Fábrica e Perdão são duas ótimas canções que, junto com a versão de Geny, valeram o esforço de me deslocar até o Corredor da Vitória. Destaque também para o rap de auto-ajuda bem ao estilo Pedro Bial (afinal filtro-solar também combina com as praias de Salvador). Não sei o nome da música e nem lembro se ela é realmente boa, mas é bem engraçada e parece que vai estar no novo álbum da banda. Por falar em álbuns, a Scambo já lançou dois e caminha para o terceiro. Em conversas depois do show, me disseram que a maior parte das canções de reggae são dos primeiros trabalhos e que, em seu terceiro álbum, a banda procura investir em “um estilo mais próprio”. Ao que parece, a banda caminharia para a superação da esquizofrenia. Mas, será que se eles completarem este movimento ainda conseguirão agradar seu público? Lembro-me de uma mulher muito engraçada que, sentada em minha frente, se balançava da mesma maneira, seja quando a banda tocava reggae ou quando ela se aproximava do rock, do samba, da música eletrônica.... Até o rap de auto-ajuda merecia braços balançantes, ao som de um Edson Gomes imaginário...
Rock com Batuque (texto publicado na revista Fraude)



Nos últimos anos, Salvador assistiu uma invasão de bandas que, influenciadas pelo manguebeat, têm como principal característica a mistura da sonoridade pop com elementos de “raiz”. Essas bandas são amadas por muitos e desdenhadas por mim, que considero suas pretensões muito altas para um mero subproduto do som de Chico Science e companhia. Chamarei aqui, de maneia meio irônica, esse tipo de rock com batuque de “afro rock”. Fazem parte desse balaio bandas como Navio Negreiro, a extinta O Cumbuca, Nego Veio (ex-Ataraxia e ex-Mano Véi), Lampirônicos, Zambotronic, entre outras. Todas essas bandas misturam o rock com alguma “coisa” brasileira; seja essa “coisa” o afoxé, samba, reggae, baião ou maracatu.

A preocupação principal é de resgatar algum tipo de identidade cultural perdida. Essa identidade é reencontrada a partir do resgate de práticas culturais dos povos oprimidos como o índio e, principalmente, o negro (apesar de nossas raízes portuguesas, nenhuma banda dessas se propõe a misturar rock com fado – seria até engraçado). Leiam nas palavras deles o que digo: “De volta à Bahia, reencontramos antigos parceiros e fundamos não apenas uma banda, mas uma comunidade de músicos, um neoquilombo musical, raiz sólida da cultura negra brasileira, concebida para atuar independente das limitações e restrições impostas pelo mercado cultural oficial”. Esse trecho foi retirado do release da banda Navio Negreiro, mas frases parecidas podem ser encontradas no release da banda Nego Veio e Lampirônicos. Como se pode ver, uma das principais birras é com a axé-music, o “mercado cultural oficial”, que, apesar da influência negra, é tida como “falsa” e “vendida”.

Esse discurso de autenticidade é comum em qualquer julgamento de valor na cultura de massa – a axé-music é tida como vilã em 9,8 entre 10 grupos de roqueiros de Salvador. Porém, me espanta a ferocidade com que essas bandas se dirigem ao ritmo das morenas (e loirinhas) rebolantes. Ao contrário de outros sub-gêneros do rock, a identidade do afro rock é contruída sob os mesmos signos de baianidade da axé-music. Temas como a negritude e a sensualidade têm papel de destaque em ambas. Porém, as bandas de afro rock têm como desejo a reconstrução de uma “raiz” africana livre da influência vil da cultura de massa. Acho isso tudo meio sem sentido. A África é um continente gigantesco, com diversas etnias, culturas e, como não poderia ser diferente, diversos tipos de música. Resumir toda a cultura africana na presença da percussão em uma banda de rock é, no mínimo, leviano. O “afro” do afro rock funciona mais como um slogan, uma garantia de autenticidade e, neste sentido, é tão “mercadológico” quanto a mistura do Brasil com o Egito da axé music.

Talvez eu esteja colocando problemas demais em algo relativamente simples. Certo que gosto de fazer o papel do crítico chato. Mas a simples possibilidade de alguém achar que estar resgatando alguma raiz cultural em sábados a noite regados a cerveja e maconha me deixa assustado. O que há é uma mistura de mito do bom selvagem e marxismo de mesa de bar. Deixemos nossas raízes, se é que existe isso, quietas onde elas estão.

Fraudes: Emerson Nogueira.

.

Já não dá mais pra não escutá-lo. Emerson Nogueira está em todos os lugares, levando os ouvintes a cantarolar com inglês à lá Solange Big Brother aquele hit grudento que vive em algum lugar nos nossos inconscientes desde que fizeram sucesso nos anos 60 e 70. O intérprete provavelmente tirou o emprego de muitos dos que sobrevivem de ‘voz e violão’ no Brasil. Isso porque os donos de bar podem simplesmente se servir de um dos três cd´s gravados por ele, com as músicas internacionais de pop e hard rock mais batidas do universo. Emerson tem fã-clube, faz turnê pelo Brasil, e vende seus cd´s a um preço muito caro, tudo isso – pasmem – só à base de covers.
A primeira pergunta que vêm à cabeça é como ele conseguiu pagar os direitos autorais para gravar e tocar. A resposta provavelmente está no fato de que o cantor é contratado da Sony, e acreditem, como compositor. Foi quando ele saiu de Minas Gerais, seu estado de origem, para tentar realizar um “projeto próprio” (palavras dele) no Rio. Entrou na gravadora com a função de arranjar e compor para fenômenos por ela criados, e explicou o sucesso do Versão Acústica como uma “junção da fome com a vontade de comer”. Ele tinha vontade de fazer isso desde os tempos em que tocava rock internacional nos bares mineiros, e a gravadora procurava emplacar um projeto parecido. Selecionaram as músicas, que por caminhos obscuros da gravadora tiveram os direitos autorais altamente facilitados e voilá! Receita para sucesso.
O mérito de Nogueira, e o que lhe garante tanta fama, é tornar hits como Hotel Califórnia, Every breathe you take, Wish you were here, em sua maioria facilmente digeríveis, em papinha de nenê. Não se trata de releituras: a versão acústica substitui todas as guitarras por violões, e bateria por percussão, ficando na voz um timbre masculino adocicado até não poder mais. A questão aqui nem é a mera falta de originalidade, ou a queixa de ganhar a vida às custas das composições de outros. O problema é a praga dos “cantores de barzinho” estar sendo levada muito à sério. Estes artistas estão ganhando as prateleiras de discos e grandes palcos do Brasil com aquela forma de interpretar que o bom-senso não permitiria sair das rodas de violão.
Os três álbuns intitulados “versão acústica” (que já podem ser encontrados em Box) estão à venda em qualquer loja de discos, por preços nada simpáticos. No repertório, “Have you ever seen the rain” do Creedence, "Smoke on the water", do Deep Purple I Still Haven't Found What I'm Looking for, do U2, Mercedes Benz, Janis Joplin e, como não poderia faltar, o hino dos aprendizes de violão apaixonados, More than Words. Qualquer ligação com as infernais rodas de violão em volta da fogueira não é mera coincidência. Este parece ser o público alvo do cantor. Não é à toa que no encarte do álbum, as letras vêm com cifras...
A fraude que recompensa
Versão acústica é o tipo de projeto que custa muito pouco à gravadora, mas que traz um retorno em vendas impressionante. Diante da crise, não é só a Sony que aposta nesta fórmula de ganhar dinheiro fácil. Cada gravadora hoje conta com seu Emerson Nogueira: Renato Vargas e Alex Cohen na Universal, Barbra Zinger e Danni Carlos na BMG... Todos com marcas genéricas (Rock´n road, Love´n road, Country´n road!, Som do barzinho) que tentam ostentar alguma legitimidade, ou apenas gerar um bom lucro.
A trajetória destas pessoas é quase sempre a mesma: o artista mais ou menos talentoso sem dinheiro, com um punhado de músicas próprias, vai tentar a sorte na gravadora. Lá, os produtores se interessam pela sua voz (ou da pronúncia do inglês) e convidam para gravar um cd com repertório cover nacional ou internacional. O que fazem, portanto, é levar às últimas conseqüências a idéia da música de barzinho, em sua versão leve e adocicada. E o público responde muito bem a tudo isso. A coletâneas da carioca Danni Carlos “Rock´n road” vendeu mais de 90 milhões de cópias em 2003, fazendo tanto sucesso que deu corda para a segunda edição, “Rock´n road again”. As músicas são hits recentes do pop rock como “Wonderwall” (oásis), “Losing my religion” (R.E.M) e “Torn” (Natalia Imbruglia).
Todos colocam como próximo passo da carreira gravar seus discos autorais. Se depender das gravadoras, não vão abandonar os covers tão cedo.


Música Problemática Brasileira (texto publicado originalmente na revista Fraude)



Falou em MPB, pensou Chico Buarque, Caetano Veloso. Sim, mas Luiz Gonzaga também pode ser lembrado. Roberto Carlos, inclusive, por que não? Agora, o que determina que artistas tão diferentes como estes estejam unidos sob um mesmo rótulo é o problema. Não há como negar a natureza complexa e abrangente desta pequena sigla, e talvez, para sua melhor compreensão, devessemos partir da seguinte pergunta: toda música popular brasileira é mesmo MPB?
Nada mais prudente a fazer, quando decidimos pensar melhor sobre alguma coisa, do que tentar voltar ao momento de seu surgimento. Para a tristeza de muitos, não vamos assumir que MPB começou nos lundus da África, fonte do sambas e tantos outros ritmos brasileiros. Estamos em busca do momento em que a sigla começou a ser empregada, lá por volta de 62, quando os barquinhos e as tardinhas da Bossa Nova já não era mais a onda da vez no país. O movimento se via descaracterizado, se comparado ao seu início.
Dois anos depois, entramos no período da ditadura militar e o espírito de protesto já tomava parte da música no país. Alguns artigos falavam em Moderna Música Popular Brasileira (MMPB) e por vezes MPM (Música Popular Moderna), referindo-se à produção desta época. A “vanguarda artística” que convivia com o fantasma da censura tinha na música uma válvula de escape e em meio a este contexto deu-se início o período dos grandes festivais de música na televisão. Vimos a sigla MPB ser difundida principalmente a partir daí, sendo incorporada no título do Festival de Música Popular Brasileira da TV Record e no nome do grupo vocal MPB-4.
A MPB acirrou, também, uma distinção ao movimento da Jovem Guarda, considerado por alguns na época alienado e pobre musicalmente. Os, primeiros representantes do rock´n roll brasileiro por sua vez, também tentaram criar sua própria sigla, MJB (Música Jovem Brasileira). Não pegou.
Portanto, foi referindo-se a uma Bossa Nova em final de carreira e ao mesmo tempo à emergente era dos festivais que o termo MPB surgiu, incorporando depois o tropicalismo firmado neste período.
O sociólogo Marcos Napolitano disse em um de seus artigos que MPB é uma “instituição”, porque com ela o formato canção popular – já esboçado na Bossa Nova – foi consolidado no Brasil. Mas esta pode ser a única característica em comum desta música, se pensarmos na variedade de repertórios inseridos sob seu rótulo. Segundo Napolitano não há uma “identidade e coerência estética rigorosa e unívoca” nas suas produções, não é à toa que seria difícil igualar artistas tão distintos como Gilberto Gil e Edu Lobo. Ou ainda, procurar similaridades entre “A Banda”, de Chico Buarque, e “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré.
Diante da diversidade, poucas são as chances de considerarmos MPB um gênero musical. O professor Jeder Janotti, que coordena um grupo de estudos sobre mídia e música popular massiva na Faculdade de Comunicação da Ufba, sugere que no momento do seu surgimento - com a música urbana de Chico Buarque e Caetano Veloso - talvez fosse possível reconhecer características de gênero. Mas afirma que “o que existe são alguns valores agregados a uma certa idéia de MPB, não um gênero”.
Complexo Cultural, uma definição dada pelo pesquisador americano Charles Perrone, poderia ser a mais coerente para referir-se a diversidade de estilos da MPB, se não fosse o fato dela fazer parecer que eles estão simplesmente reunidos ali, sem qualquer inter-relação. Só o fato de estarem imersos num contexto comum, principalmente aquele marcado pela insegurança do poder ditatorial, nos faz considerar que viviam numa constante interação entre si. Por mais diferentes que fossem seus passados, o período era de troca de experiências dentro de um sentimento comum.
Já confusa por não ser facilmente definível, a MPB sofre ainda mais hoje com a apropriação que vem ganhando. Os problemas em parte vêm do seu próprio nome, que tomado no sentido literal pode ser usado para falar de toda a produção musical de caráter popular (leia-se não-erudito) feita no país. Por isso alguns chegam a afirmar que MPB data das primeiras produções musicais do Brasil, tendo em Chiquinha Gonzaga sua primeira estrela. Outros que ela deve perfeitamente abranger toda a produção atual: do sertanejo ao arrocha. A variedade marcante nos seus primeiros anos atribui a ela ares universalistas, o que permite a tudo ser em algum sentido MPB.
Quando pensamos ter esclarecido algo acerca das três letrinhas, eis que mais problemas vêm à tona. Contradizendo tudo que foi dito acima, não seria nenhum delírio dizer que nem toda música popular brasileira é MPB. No fundo é essa idéia que está por trás de seu uso cotidiano.
É o que mostra a investigação da pesquisadora de música Martha Ulhôa, que distribuiu questionários entre o público tentando chegar aos principais artistas e aspectos estéticos da MPB. Os nomes mais mencionados foram Caetano Veloso e Chico Buarque, e entre as qualidades estavam sonoridade agradável, inovação e inteligência.
Sobre o que não faz parte do termo, os entrevistados denunciaram pobreza musical, repetitividade, falta de criatividade e romantismo excessivo. Brega, Axé Music e o Pagode, possuidores destas características, logo não se encaixam na idéia comum do que seja MPB.
Eumar Menezes, vendedor da maior loja de discos de Salvador toca neste ponto: “Foi generalizado como MPB a música da elite, então não parte da gente fazer esta definição - já é um preconceito assimilado pela sociedade”. Numa tentativa de definir o que seja MPB hoje, na perspectiva da indústria fonográfica, Menezes diz que seria uma música no estilo da bossa nova, incluindo os grandes ícones do mercado.
Se MPB ainda existir, o principal problema dos novos adeptos é que a inclusão nesta categoria muitas vezes envolve o desejo de legitimação artística e comercial, conquistada através da qualidade musical dos seus precursores. A posição consagrada e, por que não dizer, canonizada dos artistas que a lançaram, deixam qualquer um – inclusive os que já têm sua prateleira reservada nas lojas de disco – com vontade de reivindicar para si um pouco da MPB também.
Dizer que a música de artistas como Zeca Baleiro, Lenine, Cássia Eller, entre outros, entrou neste rótulo por aproximação musical com os velhos artistas da MPB é forçar os limites. Até porque foram muitas as músicas brasileiras que o termo abarcou na década de 60: da pós-bossa à Tropicália, passando por músicas de protesto, artistas com influências regionais, urbanas e tantas outras. Praticamente qualquer grupo brasileiro tem alguma característica herdada de uma das muitas MPBs, mas isso não permite afirmar que tenham se tornado necessariamente MPB.
Sem saber se foi, ou se ainda é de fato, sem ao menos ter o poder de excluir determinadas produções de seu rótulo, sendo por vezes usada pelos que almejam chegar ao topo da hierarquia musical do país, a MPB traz consigo muitos problemas. Na tentativa de solucioná-los podemos deixar de uma vez de falar em MPB ou, por outro lado, desconfiar dela e de seus ouvintes pra sempre. Podemos, enfim, mandá-la ao psicólogo; quem sabe algumas sessões de terapia ajudem...

This page is powered by Blogger. Isn't yours?