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A ditadura da guitarra com wah-wah



Hoje em dia, existe em Salvador uma faixa de consumo muito bem definida que vai do forró “pé-de-serra” ao rock com batuque. As mesmas pessoas, com suas sandálias de couro, cabelos encaracolados e saias com motivos indianos, freqüentam os shows de bandas como Bando Virado no Mói de Coentro e Navio Negreiro. Talvez porque este tipo de som combine com o clima praiano de Salvador, com nossas matas, nossas “ervas”, ou talvez porque ele esteja mais de acordo com as “raízes” negras do “povo” baiano, pouco importa. Não estou aqui para fazer qualquer juízo de valor sobre estas pessoas ou estas bandas. O que importa que no centro deste cenário, está uma apropriação pop e festiva do reggae, guitarras com wah-wah que transformam o lamento da batida jamaicana em um bom motivo para encher shows de bandas como Mosiah, Diamba e Scambo.

De tão identificadas no gosto de seu público, essas três bandas parecem, às vezes, formar uma palavra só: eugostodemosiahdiambaescambo é uma resposta muito corriqueira. Não preciso nem dizer que não faço parte deste público, mas, dentre essas três bandas, sempre ouvi dizer que Scambo é a que mais se destaca. Exatamente por isso, hoje (20/09) aceitei um convite e fui, finalmente, ver um show deles no Teatro ACBEU. A apresentação fazia parte de um projeto chamado Terças Caymmi que, ao que pude entender, tinha algo a ver com o Troféu Caymmi. O convite era de graça por isso, caso não gostasse do show, não corria o risco de ficar muito zangado. Uma boa oportunidade de modificar, ou reafirmar, velhos preconceitos.

Depois de um interminável vídeo sobre o Troféu Caymmi, no qual podíamos ver depoimento de famosos como Ivete Sangalo e Daniela Mercury, comecei a entender porque o Scambo realmente merece algum destaque na cena “pop-roots” de Salvador. Depois passei a entender também porque a banda não consegue se descolar desta cena.Vi um show bem preparado, com uma boa iluminação e efeitos sonoros interessantes. Os arranjos muitas vezes conseguiam até sair do lugar comum, flertando com o new metal, o samba, o samba rock... As letras, apesar de tratarem de temas tão “inovadores” como a hipocrisia da sociedade, eram bem construídas e pareciam convincentes quando cantadas. Para a minha surpresa estava achando bom, mas tinha algo que me incomodava o tempo todo. Aqui e ali ainda podemos ouvir, furtiva nos arranjos, a velha guitarra com wah-wah que denunciava: o Scambo é uma banda reggae travestido de modernidade. Depois percebi que não era só a guitarra. Na verdade, a banda toda dava sinais de um caso grave esquizofrenia.

O repertório do show poderia ser dividido em dois grandes blocos, a água e o óleo. Se por um lado ouvíamos pop-reggaes típicos, como o mini-hit Sol, cantado em coro por todo o teatro, também era fácil perceber as tentativas da banda de superar esta barreira. Dos quatro covers que eles tocaram, um era de Chico Buarque (Geni e o zeppelin), um de Caetano Velloso (Tigresa), um de Gonzaguinha (Ocê e eu) e um de João do Vale (Carcará). Quatro canções que, somadas à insistência de recitar poesias no meio dos números musicais, configuram uma estratégia clara de legitimação para além dos becos esfumaçados do Pelourinho (qual o nome mesmo daquele beco que toca Reggae?). Tudo ocorria como se a banda não tivesse decidido se realmente toca reggae, agradando seu público, ou parte para algumas experimentações que, diga-se de passagem, me pareceram muito mais interessantes. Essa divergência não se resume ao repertório, mas parece estar encarnada nos mais diversos aspectos da banda. Isso pode ser facilmente notado no figurino: o macacão de mecânico azul marinho, típico de bandas de new metal como o Rage Against The Machine e o Slipknot, teve que sofrer “apropriações” para combinar com o estilo "menos arrojado" de parte da banda. A roupa do baixista, por exemplo, tinha as mangas cortadas e o acréscimo de um boné, um traje típico de jogador de futebol em momento de descanso. A partir de seu núcleo regueiro, a banda parece querer apontar, de maneira desordenada, para a conquista de um público mais amplo.

Os pontos altos do show coincidem exatamente com os momentos em que a banda consegue equilibrar essas duas tendências. Fábrica e Perdão são duas ótimas canções que, junto com a versão de Geny, valeram o esforço de me deslocar até o Corredor da Vitória. Destaque também para o rap de auto-ajuda bem ao estilo Pedro Bial (afinal filtro-solar também combina com as praias de Salvador). Não sei o nome da música e nem lembro se ela é realmente boa, mas é bem engraçada e parece que vai estar no novo álbum da banda. Por falar em álbuns, a Scambo já lançou dois e caminha para o terceiro. Em conversas depois do show, me disseram que a maior parte das canções de reggae são dos primeiros trabalhos e que, em seu terceiro álbum, a banda procura investir em “um estilo mais próprio”. Ao que parece, a banda caminharia para a superação da esquizofrenia. Mas, será que se eles completarem este movimento ainda conseguirão agradar seu público? Lembro-me de uma mulher muito engraçada que, sentada em minha frente, se balançava da mesma maneira, seja quando a banda tocava reggae ou quando ela se aproximava do rock, do samba, da música eletrônica.... Até o rap de auto-ajuda merecia braços balançantes, ao som de um Edson Gomes imaginário...
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